Avaliar games?

07/03/2010 às 12:21 AM | Publicado em Games no geral, História dos games | 10 Comentários
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Todo mundo tem uma opinião. Todo mundo tem seu gosto próprio. No universo dos games também é assim, cada um tem uma preferência pessoal por esse ou aquele jogo. Existe um ditado que diz que nenhum jogo é bom o suficiente a ponto de não existir alguém que não goste, e nenhum jogo é ruim o suficiente a ponto de não existe pessoa alguma que goste do jogo. Então, poderíamos dizer que o julgamento da qualidade de um jogo é algo completamente subjetivo. Entretanto, se existem jogos que são apreciados por muitas pessoas, e outros que são odiados por muitas, talvez existam critérios objetivos que nos possibilite classificar os jogos.

Mihaly Cskiszentmihalyi. Duvido Você escrever o nome dele sem dar ctrl+c - ctrl+v .

Bem, na verdade, me parece que existe uma união das duas coisas. Existem critérios objetivos e critérios subjetivos que podem ser utilizados para avaliar um game. Isso acontece em outras formas de mídia também: existem critérios objetios para se avaliar cinema ou música, entretanto também existe um grau importante de subjetividade. Uma mesma obra pode causar
diferentes sensações em diferentes pessoas, e isso deve ser levado em consideração em qualquer avaliação.
Por isso, quando lemos uma crítica sobre um filme ou alguma outra obra de arte, temos que levar em consideração qual pessoa está escrevendo aquela crítica. Normalmente críticos de arte são pessoas que estudam a fundo aquela arte. Estudam a técnica, a teoria, e muitas vezes possuem experiência na prática da coisa. Também estudam profundamente a história daquele tipo de arte, conhecendo obras de diferentes épocas daquele tipo de arte. Portanto, quando vamos ler uma crítica, devemos saber o quanto aquele crítico conhece sobre a arte que está criticando. Isso normalmente fica claro pela qualidade da argumentação do crítico, e quando a produção desse crítico chega a uma certa quantidade, podemos também avaliar melhor seus critérios subjetivos.

Só porque você já jogou Pacman não quer dizer que você entenda algo de história dos games.

Qualquer pessoa pode criticar uma obra, mas me parece óbvio que a crítica de quem tem um conhecimento mais profundo daquela arte possui mais peso, independente dos critérios subjetivos utilizados por aquele crítico. Infelizmente, no universo dos games, a imprensa “especializada” no assunto é, num geral, especializada apenas no nome. Games, diferente do cinema,da música ou da literatura, dependem muito da interação do “receptor” com a obra. Então, um primeiro problema dos críticos “profissionais” é que a maioria não tem muita experiência com a tal interação. A cada crítica que leio em sites especializados, os escritores parecem não ter muita intimidade com um joystick na mão, já que jogos relativamente fácies são comumente considerados muito dificéis (O recente Blur é uma prova disso, é um jogo de
moderada dificuldade, reportado constantemente nos sites como um jogo de extrema dificuldade). Isso é facilmente explicado pelo fato de que esses escritores não são gamers de verdade, são pessoas formadas em jornalismo que não conseguiram arrumar um emprego melhor. Esses caras não são contratados pela sua experiência ou conhecimento no mundo dos games, e sim pela
capacidade de escrever um bom texto. E pelo fato de não serem gamers, esses caras normalmente não conhecem nada sobre a história dessa mídia. Não é incomum encontrar erros factuais em
matérias escritas por tais críticos, consequencia da ignorância sobre a mídia da qual esses indivíduos escrevem. É possível estudar a história dos games de forma teórica, mas é extremamente importante, para o entendimento profundo da coisa, viver a prática e jogar os jogos de diferentes épocas (E se possível, conseguir ter abstração suficiente para entender o jogo em sua
época).

Colheita Feliz é baseado em teorias de psicologia para fazer você ficar viciado no jogo. VOCÊ ESTÁ SENDO MANIPULADO!

Por fim, esses críticos não possuem conhecimento teórico algum sobre o assunto. Nenhum deles desenvolveu algum jogo na vida, normalmente não possuem a menor idéia do processo de desenvolvimento de um jogo, Também não entendem a teoria dos games. Portanto, não possuem nem conhecimento teórico, nem técnico, nem prático. A literatura acadêmica sobre o assunto é relativamente recente, mas existe e é bastante rica. Além disso, existe uma literatura sobre psicologia que é essencial para entender o efeito dos games sobe as pessoas. As teorias behavioristas de Skinner, mesmo já sendo  consideradas ultrapassadas pela psicologia moderna (e com razão), são utilizadas amplamente na criação de jogos online como World of Warcraft. E será que alguém acha mesmo que esse pessoal que escreve pra site de games já leu algo escrito por Ian Bogolst e seus estudos sobre a influência dos games no comportamento da sociedade? O tão importante Conceito de Flow, descrito por Mihaly Csikszentmihalyi, que é extremamente importante na concepção de games hoje em dia? Quantos deles será que leram Mark Wolf e sua teoria sobre desenvolvimento de games? Eu poderia citar vários outros teóricos do assunto que poderiam ser estudados, mas infelizmente a crítica “especializada” parece ignorar toda essa literatura. Existe um ponto extremamente importante nessa história toda também: boa parte dessa “crítica especializada” é comprada. Uma quantidade considerável das críticas escritas em revistas e na internet nada mais são do que propagandas pagas. Infelizmente existe todo um sistema funcionando para manipular o “consumidor” a comprar certos produtos e manter a engrenagem da indústria rodando. Se alguém considera Games como uma forma de arte, infelizmente foi a forma de arte que aderiu mais rapidamente ao sistema capitalista, tornando a maioria massiva das suas obras em produtos para consumo visando exclusivamente o lucro (o que não deveria ser a função primordial da arte). Mas isso é assunto para outro texto.
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10 Comentários »

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  1. Rafael, acho que o seu texto tem argumentos interessantes, mas a “crise” da crítica oficial que você vê no universo dos games se estende também para toda e qualquer forma de arte. Vide a crítica de cinema que se lê nos jornais de grande circulação, que é feita por gente cada vez mais nova que simplesmente “gosta de cinema”, mas claramente não possui fundamentação teórica alguma — a crítica, de forma geral, virou um emaranhado de achismos, não melhores do que os de qualquer caixa de comentários de blog ou fórum de internet. Na verdade, no caso do cinema, o que se vê é que os critérios são meramente subjetivos, pois dificilmente lemos uma crítica que sequer contextualize o filme x dentro da própria obra do autor y, ou o relacione com obras que dialoguem com ele ou mesmo com o panorama completo do que é produzido atualmente e no passado deste ou daquele gênero em que o filme se insere. Falta o verdadeiro olhar crítico, que é capaz de absorver, relacionar com a bagagem prática e teórica, e produzir em cima disso. A coisa para no “gostei” ou “não gostei” — e isso não é crítica. Quando eu escrevia um blog que versava bastante sobre cinema, dificilmente me atinha ao fato de o filme ser necessaria bom ou ruim, mas nas qualidades e defeitos dele, relacionando-o à obra pregressa do próprio diretor, ou, no caso de diretores estreantes, em como ele lidava com seu universo de referências particular… Sem dúvida um assunto longo e complexo, mas a questão é que a crise da crítica é, no fundo, uma crítica geral do pensamento detido, analítico, em prol de “análises” apressadas e superficiais em todas as áreas.

    A propósito: dá uma outra revisada no texto, tem alguns typos espalhados por ele 🙂

    • Meus textos sempre são revisados, e sempre sobram typos 🙂 Eu fico revisando a semana inteira, toda hora eu acho um erro, vou lá e edito 🙂

      Existem críticos de cinema bastante gabaritados, com base em sua argumentação. Um brasileiro que eu gosto muito é o Pablo Villaça. Fora isso, todo o seu comentário é bastante pertinente, e concordo com tudo que você disse.

      • Sim, sim, o Villaça é bom, mesmo. Estava pensando mais na crítica de jornal, que anda mal das pernas de forma geral — os suplementos literários também carecem de bons críticos. Tem gente boa nos meios mais alternativos, também, como o pessoal da Contracampo, por exemplo. O que é interessante pensar, talvez, é se, em tempos de internet, a crítica dos grandes veículos ainda consegue ser relevante. Até sites mais “bobos”, como o Omelete, me dão um insight mais preciso das estreias da semana do que um box no jornal, que precisa ter três parágrafos curtos no máximo e atender a um público geral, não necessariamente especializado.

        A imprensa de forma geral (e aí incluo a de games) sofre de dilemas que um veículo como a Internet não sofre: ao mesmo tempo em que precisa oferecer uma opinião abalizada, não pode ser muito profunda, pois precisa atrair leitores-consumidores, que não necessariamente se interessariam por/perceberiam nuances às quais hardcore gamers dão valor. Ou seja, precisa ser acessível (para ganhar mercado), sem ser superficial — e este é um equilíbrio delicado. Um site como, sei lá, o RPGFan, de que gosto, é feito por gente que entende do riscado, mas não precisa “atrair leitores” — quem chega a ele, é porque já sabe o que quer. E um jornalista recém-formado que gosta de games, e, na falta de coisa melhor, acaba fazendo matérias chulés para “revistas especializadas”, nem conseguria ser publicado em um site como esse — mas publica no papel, com os resultados que você analisa acima.

        Enfim, atualmente, boa parte do que povoa as bancas de jornal me parece “mídia morta”, de qualquer forma. Posso ler mais e melhor na net, nos sites em que confio.

  2. Cara, eu nao acho que games, eme ssencia, sao uma forma de arte propriamente dita, em principio.
    Mas acabou evolindo pra tanto.
    Eu costumo comparar com os quadrinhos. Eles foram feitos pra venderb e obedecer certas regras de mercado, mas dentro destes parametros acaba saindo algo maior. as pessaos costmam comparar quadrinhpos com livros, existem graphic novels que sao muito incensadas.. ams a linguagem nao envolve so desenhos e baloes de texto. de certa forma envolve a peridiocidade, a cronologia ( no caso de Marvel e DC) e a interpretacao dos artistas contratados em cima destes elemntos.a propria rotatividade destes artistas e a evolucao dos personagens em ciam disto.. eu acho essencial pra compreender.

    Tudo isso pra dizer que pra julgar um jogo nao absta mesmo olhar os graficos oua musica e aproximar dso filmes. a linguage,m vai alem disso e fois ewndo construida nestes anos tds.
    Gamesdevaim ser feitpos por gamers mesmo. gente q cresceu com essa linguagem

    • Eu não entendo muito do universo dos quadrinhos, mas acompanhei o que você comentou. E de fato, existe um problema sério da indústria num geral de querer aproximar os games do cinema, o que é algo bastante errado. Os executivos da indústria de games fazem isso o tempo todo, pois eles também não entendem muito do processo de desenvolvimento de games, e se preocupam unicamente com quanto retorno financeiro o game vai dar (Eu imagino que muitos executivos de cinema funcionem da mesma forma). O problema é quando a própria crítica da mídia, que deveria ser mais especializada e saber do que está falando, acaba cometendo o mesmo erro.

  3. Um nome me veio à cabeça imediatamente: Stephen Totilo. O cara é uma lástima! Ele era da MTV e foi pro Kotaku. Ele faz review de jogo de nave sem nem saber jogar o estilo, sem ter jogado por décadas. Como (acho que) ele tem de terminar um jogo para resenhar, lá vai continue infinito. Não é possível que ele tenha feito 1cc num bullet hell! Nem 3cc. Só o fato dele ter metido o pau em Metal Torrent já me faz considerar o jogo bom sem ter posto a mão nele. Parece que ele não leu as instruções (nem sei se tem, mas…). Como ele falou bem de ESPGaluda II, que deve ser o cúmulo da complicação, não sei.

    Não sei se é ele, mas alguém na Kotaku faz review de jogo de luta 2D sem nunca ter jogado o estilo. Capaz de ser ele, pois se me lembro bem, ele não sabe a diferença entre Kyo Kusanagi e Napoleão Bonaparte. Os caras naquele site põem jogos nas mãos de caras tão experientes quanto meu pai.

    IGN é uma piada. Um jogo levava bom score na versão console, mas depois era destruído na versão PC. Todo mundo sabe que paradigmas de PC e console são diferentes, tem gente que nem ousa cruzar a fronteira. Provavelmente, o resenhista de PC na IGN. E também tem os copy/pastes sem nem editar para refleteir a plataforma.

    1UP/EGM vendia uma semana de espaço em matérias exclusiva. Como eles podem fazer uma resenha imparcial nesses termos?

    Nesses dois sites acima, já vi críticas sobre aspectos que, se mudados, quebrariam a mecânica do jogo. Tudo porque supostamente os jogos todos deveriam explorar toda a potência do console, como proporção de imagem e quantidade de butões.

    Gamespot já demitiu crítico por bronca de empresa.

    No Brasil, é piada. Já vi revista dizendo que Guilty Gear XX não tinha profundidade – o jogo de luta 2D mais complexo até então.

    • Até dá para entender diferença de score entre resenhistas diferentes no mesmo site, mas quando não há uma convergência objetiva nos textos, temos um problema. Exemplo do contrário: já vi gente louvando e malhando o visual de tons terrosos do Ikaruga. Achando bom ou ruim, ao menos o leitor já sabe que o visual é assim graças resenhas de pessoas de gostos bem diferentes.

  4. Sabe uma boa bibliografia sobre games oldschool, coisas antes da invenção do memory card?

    • Não necessariamente livro antigo (se é que já havia), mas algo que fale da teoria do design old school.

      • Não… esse tipo de estudo é relativamente recente. Na época old school acho que a galera ia mais por “instinto” mesmo.

        Eu sei que existe um historiador que pesquisa os games da antiga e como eles influenciaram a sociedade atual, mas não me recordo o nome dele agora. Posso dar uma pesquisada e te falar depois.


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